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Saúde
Cisternas asseguram água potável no Brasil
Mario Osava

Rio de Janeiro, 12/09/2005, (IPS) - As cisternas para recolher chuva já garantem água potável a mais de cem mil famílias brasileiras, e a meta é construir um milhão até 2008, beneficiando toda a população pobre da zona rural do semi-árido do Nordeste do Brasil. Essa água representa "saúde e esperança" para quem antes tinha de buscar água suja a quilômetros de distância, afirma um folheto em forma de cordel com o qual a organização Articulação no Semi-árido (ASA) divulga seus programas e idéias. A ASA é uma rede de mais de 700 organizações não-governamentais, sindicatos, cooperativas e associações criada em 1999 para impulsionar projetos de desenvolvimento nessa região onde vivem 25 milhões de pessoas, a maioria pobre e periodicamente submetida a graves secas.



O princípio básico é buscar soluções de convivência com o clima e o ecossistema local, rejeitando projetos de combate à seca como as grandes represas, que só favorecem uma minoria e não promovem um desenvolvimento sustentável. Mobilização e participação social são indispensáveis, afirma a organização. A ASA se opõe ao projeto do governo de desviar águas do rio São Francisco, que nasce no centro do País e cruza uma parte do Nordeste, para abastecer outras partes do semi-árido. Além do alto custo financeiro e ambiental da obra, a mesma beneficiaria a poucos, agravando a concentração da água e da terra, segundo porta-vozes do grupo.

Há quatro anos, a rede iniciou o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), que ganhou impulso em 2003 ao ser incluído na política governamental Fome Zero, que compreende distribuição de alimentos e bolsas para famílias pobres, estímulo à agricultura familiar e outras ações. O governo é a principal fonte de recursos, mas há contribuições de origens variadas, como agências da Organização das Nações Unidas, Federação Brasileira de Bancos e organizações estrangeiras. "Um casal italiano que veio conhecer o projeto doou dinheiro para construção de duas cisternas", além de duas casas, e prometeu voltar no próximo ano com novas contribuições, disse à IPS Cristiano Cardoso, assessor técnico do P1MC.

Cada cisterna custa, em média R$ 1.500. Seu custo se reduz pela mão-de-obra dos próprios interessados e ajuda da comunidade. A constituição de fundos solidários com contribuições de vizinhos é estimulada para construir mais cisternas e atender outras necessidades comunitárias. As cisternas são construídas ao lado de cada casa da população mais necessitada. No semi-árido do Nordeste chove, pelo menos, 200 mililitros por ano, suficiente para abastecer cinco pessoas anualmente se a água que cai do telhado for armazenada. A construção é feita com placas pré-fabricadas de cimento. Os tanques cilíndricos com capacidade para 16 mil litros são localizados de maneira a recolher toda água que cai do telhado da casa e tem uma parte colocada em um buraco cavado no solo.

"Este não é um programa de governos nem de políticos, mas da sociedade organizada", explica a ASA. As famílias beneficiadas participam de todas as fases da construção e de cursos sobre o significado do projeto os cuidados para recolher e manter a água limpa.
Cumprir a meta de um milhão de cisternas dentro de três anos parece muito ambicioso diante da experiência atual, reconheceu Cardoso. O número cem mil foi alcançado no final de agosto. Acelerar o ritmo exige não apenas mais recursos, mas principalmente ampliar muito a capacidade operacional da rede. Este crescimento depende de multiplicar as Unidades Gestoras Micro-regionais, que coordenam o processo em determinada área. Atualmente são apenas 51, e cada uma pode gerir a construção de 500 a 1.500 cisternas por ano, com infra-estrutura de pessoal, veículos, computadores e equipamentos para registrar a história de cada obra, explicou Cardoso.

O processo não se limita à construção, mas também contempla a capacitação, a associação comunitária e a educação ambiental. O P1MC tem como nome completo Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-árido Brasileiro. Antônio Xavier de Souza, um indígena do grupo pipipan, se queixou à IPS de sua cisterna, instalada há três anos em Floresta, município de Pernambuco, dizendo que, "embora seja muito útil", não assegura água durante todo o ano para sua família. Em 2004, quando choveu muito, agüentou até setembro, mas este ano, mais seco, a água acabou em abril. No restante do ano, utiliza a cisterna como depósito de água trazida de represas e poços próximos, transportada em carro de boi.

Um melhor aproveitamento da cisterna depende da gestão da água e da ampliação da captação da chuva, observou Cardoso. Às vezes, o telhado pequeno não permite encher o depósito. Cada metro quadrado de telhado recolhe 75 litros quando chove 100 milímetros, afirmou o técnico. No Nordeste chove entre 400 e 800 milímetros por ano, em média, e pelo menos 200 milímetros nos anos mais secos. Entre as regiões semi-áridas do mundo, a brasileira é onde mais chove, afirma a ASA. Isso permite, nos anos bons de chuva, encher a cisterna de 16 mil litros com 500 milímetros de chuva sobre um telhado de 450 metros quadrados.

Cumprido um décimo do programa de cisternas no final de agosto, a ASA se dispõe agora a ampliar suas ações com o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), inspirado em uma experiência do norte da China, de clima semelhante, em que o uso intenso da água de chuva, com 2,5 milhões de cisternas, permitiu o desenvolvimento agrícola de 1,1 milhão de famílias. À cisterna de água para beber e cozinhar se somarão outras tecnologias de captação e conservação para a agricultura familiar e criação de pequenos animais, como galinhas e cabras. Pequenas represas subterrâneas, que reduzem a evaporação, reservatórios de água, mandalas (depósitos para irrigar hortas circulares) e outras técnicas conhecidas estão em fase de demonstração, antes de sua difusão em massa. Assim, a ASA também pensa em instalar em 50 mil poços a "bomba manual popular", criada pelo holandês Gert Jan Bom em Burkina Faso há 20 anos, que permite a extração fácil da água. (IPS/Envolverde)


(FIN/2005)

 
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